Miriam Tolpolar

O que primeiro se destaca, nas gravuras de Miriam, é seu imaginário. Relativamente de fácil decodificação - pois a artista utiliza símbolos para caracterizar a solidão do homem. Que representam, com efeito, o gato e o pássaro que o acompanha, este sobreposto àquele? Pode-se ver neles uma série de metáforas possivelmente relacionadas com o sexo. Mas, mais importante que isso talvez, o poder de sugestão de tais imagens. Segurando o fio condutor do leit-motiv, Miriam vai passando de um mundo para o outro: angústia, apreensão, pavor e, não raro, reprimida ternura. A cor de cada gravura, não mesclada a outras, suscita uma espécie de atenção hipnótica, que favorece leituras múltiplas. O próprio decorativo é submetido a uma catarse, de maneira a sublinhar o conteúdo da mensagem. Exemplo disso as espirais que, além de serem uma rima dos olhos felinos, transportam o contemplador aos signos mágicos de Creta ou das iluminuras góticas. Resulta uma obra gráfica de indiscutível expressividade, surrealístico- expressionista, mais expressionista do que surrealista, inclusive pela implacabilidade com que a artista expõe seu lirismo.

Lirismo hostil, que se expressa na agressividade dos olhos do gato, sempre alertas e no bico do pássaro, que não canta, mas grasna. Todo esse imaginário é importante, sem dúvida, porém cometeríamos grave equívoco se nos esquecêssemos de que estamos diante de uma gravadora (que é também pintora). Ora, a gravura é uma escrita, que tem a singularidade de mostrar o que nela se escreve. Riscos, traços, entrelaçamentos: a técnica é a de uma descontinuidade que compõe uma unidade. São letras que formam uma frase - o sentido visual. A preocupação obsessiva de Miriam em relação à unidade, conseguida, aliás, através de calculada desarticulação, permite-lhe introduzir no conjunto pausas estratégicas, brancos gritantes ou sutis, que conferem às gravuras um grau de sutileza e graça. Não fossem eles, as gravuras poderiam, por vezes, fatigar o leitor. Temos, pois, aqui uma artista consciente, de uma criatividade brilhante, que não se importa em insistir nos seus motivos para deles obter uma escrita pessoal, um estilo. Ela poderá, eventualmente, chegar a um imaginário mais depurado; porém o que importa é que suas litografias atuais revelam a mão de alguém que sabe escrever, que grava o que o coração lhe dita, podendo ser lida por qualquer olho e imaginação capaz de ler e entender visões.

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Armindo Trevisan
1990