Os trabalhos apresentados por Miriam Tolpolar nesta exposição resultam do cruzamento de diversos procedimentos envolvendo imagens fotográficas e impressões através de recursos técnicos da litografia. Estes grandes panos de seda branca, que servem de suporte para imagens de rostos e objetos do universo de referências pessoais da artista, se constituem como um espaço de criação e de reflexão, explorando zonas de coexistência e conexões entre imagens, memória e identidade.
Nesses trabalhos, realizados com o apuro que caracteriza sua produção, Miriam, justamente reconhecida como execelente gravadora, não elege uma técnica enquanto um sistema fechado para o seu fazer artístico. Ela extrai do sistema da gravura procedimentos heterogêneos, cruzando-os com outras técnicas de reprodução de imagens, para viabilizar elementos conceituais de sua proposta poética.
As obras que constituem o corpo da exposição foram realizadas no contexto de sua pesquisa de Mestrado em Poéticas Visuais. Nessa pesquisa, a artista adota alguns procedimentos técnicos da prática da litografia para trabalhar referências pessoais sobre identidade e memória, envolvendo uma reflexão sobre a morte a partir de referências na cultura judaica. Nesse percurso, Miriam estabelece diálogos com a obra de artistas em afinidade com os parâmetros que estabelece, revê posições relativas ao sagrado e aos rituais, além de traçar considerações sobre os aspectos da gravura quanto a questões técnicas e pesquisa de materiais. Os pressupostos da pesquisa envolvem o abandono da crença na arte como expressão a partir de um domínio técnico específico, para creditar confiança na predisposição em articular elementos conceituais com procedimentos técnicos abertos, visando explorar dados novos, imprevisíveis no contexto de sua produção artística.
A memória atualiza o passado no presente, ela traduz esta capacidade de nossa mente em reter e recordar certos acontecimentos, significativos ou banais; alegrias, tristezas, dramas - pequenos ou grandes -, constituindo a constelação de referências que contribuem na construção de uma identidade. Nossa identidade não é estanque, ela se atualiza incessantemente em nossas lembranças, - mas também naquilo que esquecemos, ou do que não queremos lembrar... é constituída em permanência, por fatos coletivos e de nossa história pessoal, acontecimentos que a vida impõe, escolhas e vínculos afetivos que somos capazes, ou não, de estabelecer. Na realização deste trabalho, Miriam visitou suas memórias, através de coisas guardadas em caixinhas e gavetas. Dos álbuns de família, selecionou imagens, suas e de outros : seus "mortos" e "vivos", como ela os denomina, que tecem a trama de sua identidade.
Em que medida trabalhar questões relativas à identidade, - "ganhos e perdas" que a vida nos reserva, - pode constituir um campo de relações fecundas para o fazer artístico?
Na medida em que possibilita pensar as operações instauradoras do trabalho de arte não como ações normativas, suscitando aplicações técnicas previsíveis, mas enquanto procedimentos abertos que instigam a busca de soluções formais e vivenciais para a resolução de problemas colocados por uma proposta poética. Miriam Tolpolar realizou sua pesquisa com sensibilidade e inteligência, na medida em que foi capaz de colocar em cena elementos biográficos como catalizadores de questões culturais, e soube potencializar os procedimentos para ativar processos semânticos na obra acabada.
Sandra Rey
Porto Alegre, agosto, 2004