Miriam Tolpolar

Procurarei falar do trabalho de Miriam Tolpolar a partir do próprio trabalho, sem recorrer às informações que tenho sobre sua trajetória como artista e, menos ainda, às informações sobre sua vida. Procurarei ler (árdua tarefa para quem está acostumado a associar imediatamente o público e o privado) o que está grafado no próprio corpo da obra.

Esta exposição apresenta uma série de litografias sobre tecido. Por mais mecânico que seja o processo de gravar, é inevitável que a marca das mãos de quem fez fiquem densificadas no negro profundo da tinta que se torna imagem. Não são gravuras comuns por causa da inusitada dimensão que apresentam. Saímos do universo intimista das imagens gravadas, tradicionalmente reservadas para a contemplação discreta e pessoal, para configurações que se apresentam monumentais e eloqüentes.

As formas que podemos observar são imediatamente associadas à idéia de obeliscos, totens ou lápides. Todas essas formas são marcos ou sustentáculos para manter de pé a história, a memória, a tradição e a lembrança. Além desses marcos memoriais, as marcas de objetos múltiplos, parte do todo que é o universo que cada um de nós mantém como fatos importantes para a vida: os óculos, as carteiras, os documentos, os livros, os escritos e as pedras.

A pedra onde se grava, a pedra da qual se faz o monumento e também a lápide, onde se grafam nomes e datas. A pedra onde se gravam as marcas que depois serão impressas no papel ou no tecido. As pedras que se colocam nos túmulos para marcar a presença de quem veio prestar as homenagens devidas àqueles que não mais estão fisicamente entre nós. Mas por que a pedra? Não avançando para nenhuma análise cultural, fiquemos apenas no que a própria pedra tem de perene. A pedra é a que sustenta, a que constrói, aquela que jogamos para nos defender e também para atacar; a pedra com a qual brincamos de jogar na água para fazê-la se mover.

O tecido que é o suporte da marca grafada e gravada. O tecido que é leve, que ondula com o vento e que, ao ondular espalha a mensagem que está impregnada no seu próprio corpo. O tecido que é etéreo como um véu e que, qual bandeira, desvela a ausência que traz em si marcada.

O que podemos perceber afinal?

A identidade na raiz do próprio projeto, presentificada na fidelidade ao meio que a artista consagrou como seu - a gravura. A ênfase em plasmar uma ausência através de uma obra que se quer monumento - obra ou construção destinada a transmitir à posteridade a memória de um fato ou de uma pessoa notável - que traz marcado em si os índices de um corpo ausente com uma secura e densidade notáveis.

E também a emoção, pois aquilo que emociona torna-se inesquecível.

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Paulo Gomes
Porto Alegre, 10 de janeiro de 1999.