No ilusório espaço de representação bidimensional de Miriam Tolpolar habita uma série de fantasiosos seres que muito têm a revelar sobre o mundo e sobre nós mesmos.
Em um tempo mais remoto haviam inúmeros gatos audaciosos e instigantes no suporte das litografias e pinturas desta artista. Mesclavam-se às vezes à figura humana e rodeavam-se de pássaros cheios de escamas e de curiosos lagartos e cobras. Outros elementos pulverizavam estes conturbados mas poéticos espaços- entre as garras felinas oscilavam os mais curiosos objetos do cotidiano. Xícaras, casas, açucareiros deslocavam-se sem gravidade, remetendo-nos às etéreas paisagens de Chagall. As figuras metamorfoseadas de pássaros a peixes, de galinhas a cobras e de gatos a pessoas marcavam também uma fantástica áurea Kafkiana. Ainda, várias caixas, neste imaginativo mundo representado, continham em seu interior os mais lúdicos sonhos dos protagonistas; gatos que nos espreitavam ou brincavam entre si com displicência. No espontâneo grafismo destas gravuras podia-se vislumbrar o futuro de uma paulatina mudança. Hoje, o trabalho de Miriam Tolpolar tornou-se mais visceral. Os opulentos gatos deram lugar às personagens humanas. Estas não temem mais existir e abandonam definitivamente a metamorfose. Assumem-se no espaço plástico, extrovertendo sempre seus corações. Abraçam-se, gesticulam, ou simplesmente aí estão, rodeadas de uma diversidade de signos que lhe dizem respeito. Mãos, ossos, pernas e pés. A parte e o todo. O que é de dentro está fora. O coração sempre ultrapassa transparente os corpos ou até vive fora deles, assim como partes da ossatura. O visível é muitas vezes o que está encoberto. E nesta constante polaridade surgem ainda efeitos de reversão de formas. Ou inversão? O espelhamento de imagens substitui a metamorfose. O poder de sugestão cresce e as propostas revestem-se de acentuada qualidade evocativa. Não perdem a espontaneidade do grafismo e da mancha em cor, desenvolvida desde o início com astúcia. Mãos e muitas mãos estão possuindo o campo visual como em Altamira já o tinham feito. Lobos marcam vigorosamente agora sua presença, substituindo os brejeiros gatos de outrora. Hoje, maior veemência dos significados, onde eclodem as mais profundas questões da existência humana sem escamoteamentos. Entre traços discretamente ingênuos, as figuras, lobos, mãos e ágeis aviõezinhos; as histórias da infância, o amor verdadeiro, segredos, aconchego, a infinitude e a dor. Enclausuradas em possíveis ocas, as figuras debatem-se nos limites impostos. Extravasam-se no entanto com poesia e, ao mesmo tempo, com tenacidade sobre estes cenários pintados e gravados, compostos pelo rico imaginário de Miriam Tolpolar. Suas figuras poderão evidenciar cada vez mais a maturidade que sutilmente começa a se projetar no espelhamento do tempo.
Mônica Zielinsky
Professora e pesquisadora em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS.
Porto Alegre, agosto de 1993.