Miriam Tolpolar

Você sabe o que é litografia?

A litografia é uma técnica da gravura inventada há duzentos anos pelo músico alemão Alois Senefelder, que buscava uma forma de reprodução de suas partituras musicais. Sua invenção portanto, tinha propósitos puramente comerciais: inicialmente para a difusão de peças teatrais e depois para a reprodução rápida e em larga escala de documentos, edição de jornais, revistas, rótulos, calendários, enfim, toda a espécie de material gráfico comercial. Mais ou menos cinqüenta anos após sua invenção, esta técnica despertou a atenção de inúmeros artistas, que perceberam suas infinitas possibilidades expressivas. Goya foi o primeiro artista a distinguir estes valores na litografia e a partir de suas gravuras, a maioria dos artistas modernos, em algum momento de suas trajetórias, experimentou esta linguagem. Devido a este fato, Goya é considerado em inúmeros livros de história da gravura, o "inventor" da litografia, pois foi o artista que, transcendendo às questões técnicas compreendeu sua linguagem elevando-a ao lugar de obra de arte.

Nas imagens abaixo, alguns dos procedimentos necessários para a realização de uma litografia.

Ponçagem

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Desenho

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Preparação da pedra

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Impressão

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Fotografias feitas na Oficina de Litografia do Atelier Livre da Prefeitura no ano de 2002 por Cylene Dallegrave.





Pequena história da Litografia

Litografia: do grego: lithos/pedra, graphein/escrita

A litografia foi inventada em 1797 pelo alemão Alois Senefelder (1771-1834), autor teatral que buscava métodos mais econômicos para reproduzir suas partituras musicais.

Senefelder aspirava ser compositor e dramaturgo, mas felizmente para as artes gráficas, suas aspirações não foram compartilhadas pelos editores da época. Dispôs-se então a idealizar e pesquisar um método que lhe permitisse reproduzir sua própria música e escritos, gravando e imprimindo sobre pedras extraídas de pedreiras dos arredores.

Em seu livro "Curso Completo de Litografia", de 1819, Alois Senefelder descreve o longo período de experimentação que o conduziu finalmente ao descobrimento do que é hoje o principal método de impressão planográfica[1]. Senefelder relata como, após centenas de experimentos, descobriu que não era necessário atacar a pedra com ácido nítrico e goma para obter relevos, compreendendo que bastava apenas aplicar esta solução para transformar imediatamente as propriedades da pedra.

Uma vez sedimentadas as bases do processo, Senefelder continuou ampliando suas investigações e ao longo da década seguinte criou o papel de impressão adequado à litografia e ampliou as possibilidades de impressão em placas de zinco. Idealizou também uma nova prensa e introduziu a técnica de entintagem com rolo (na época eram utilizadas "bonecas" de couro).

Os primeiros avanços da litografia caminham de certa forma, junto a Revolução Industrial e o Romantismo. Apesar de a Revolução Industrial encontrar-se no início, seu impacto sobre as artes gráficas foi importantíssimo. Até 1800, eram utilizadas para impressão, as prensas de madeira usadas na fabricação de vinho, que foram modificadas e adaptadas por Gutemberg no século XV.

Neste período, a comunicação através da palavra impressa se desenvolvia com muita rapidez: começam a aparecer os primeiros jornais da época e são fabricadas em fundições as primeiras prensas, a prensa de cilindro acionada por vapor e as prensas litográficas com motor (Paris, 1833).

Até 1810, a litografia se destinou unicamente à exploração comercial: jornais, livros, ilustrações, rótulos, baralhos, folhinhas e todo o tipo de material impresso. A partir deste período, começa também a ser utilizada para a reprodução de desenhos e pinturas de grandes mestres.

No século XIX, a litografia teve grande aceitação também nos meios artísticos, sendo que as primeiras obras editadas por artistas foram feitas em Londres, expandindo-se imediatamente para a Franca. Géricault e Delacroix foram artistas que melhor expressaram o Romantismo em suas obras e Daumier utilizou a litografia como arma política e social, levando sua mensagem ao público em jornais e revistas da época. São também conhecidas e bastante difundidas as litografias de Manet, Degas, Odillon Redon, Bonnard, entre outros.

Goya destaca-se por, além da indiscutível qualidade de sua obra, ser o primeiro artista a adotar a litografia como meio de expressão, tendo aos setenta e nove anos, realizado a maravilhosa série das "Tauromaquias".

Em 1837, Engelman inventa a cromolitografia e a impressão em cores se difundiu rapidamente, devendo-se destacar Toulouse-Lautrec, artista que revolucionou o uso da cor, rompendo com a tradição e levando a técnica a sua maior perfeição, produzindo na época trezentos e cinquenta cartazes, programas litografados, ilustrações para livros, etc.

A litografia foi utilizada também por artistas expressionistas, movimento que floresceu até o início dos anos 20, e sua influência entre impressores e ilustradores foi muito forte. Podemos destacar Edvard Munch, com a gravura "The Scream" e Käthe Kollwitz, autora de poderosas imagens abordando a pobreza, a morte e a guerra.

No período entre guerras, Picasso dominou o cenário das artes, tendo a partir de 1945, dedicado sete anos na produção de uma coleção de estampas em grande escala, coloridas e monocromáticas.

Grandes nomes da arte contemporânea como Matisse, Kandinsky, Klee, Chagall, Miró e Rauchemberg, entre tantos outros, utilizaram a litografia como linguagem.

Em 1905, o americano Ira Rubel descobriu acidentalmente o processo offset, isto é, a impressão baseada no mesmo princípio da litografia, porém utilizando em substituição da pedra, as chapas de zinco e alumínio. A partir da popularização do processo offset, a litografia passou a ser utilizada apenas como meio de expressão artística.



A Litografia no Rio Grande do Sul

O primeiro atelier litográfico de Porto Alegre, foi inaugurado em 1849, de propriedade de Pomatelli & Cia. Chamada "Litografia do Comércio", imprimia rótulos, etiquetas, estampas religiosas e outros, com a finalidade de servir a industria e ao comércio e localizava-se na rua da Praia, n 32. Em 1854 esta oficina é vendida, surgindo a "Litografia Imperial", que foi a primeira do sul a imprimir, neste processo, publicações em fascículos. Um ano depois é novamente transferida, sendo que Emílio Wiedmamm, o novo proprietário atuou até 1925 executando trabalhos de encomenda feitos por inúmeros artistas locais.

Em 1885 é criada a "Litografia Weingartner", de Inácio Weingartner, considerada uma das mais importantes do Brasil, destacando-se Pedro Weingartner, sobrinho do proprietário, que cedo aprendeu o ofício de litógrafo e veio a tornar-se um dos primeiros artistas a fazer gravura original.

Outras oficinas litográficas funcionavam ainda em Porto Alegre no final do século passado, como as oficinas da "Livraria Americana", da "Livraria do Globo" e a "Litografia do Comércio", de Alberto Engel. As cidades de Pelotas e Rio Grande também já possuíam oficinas litográficas, porém atuando apenas para a indústria e o comércio.

Na década de vinte, com a criação da revista do Globo, as artes gráficas tomam um novo impulso no sul, destacando-se a atuação do litógrafo alemão Zeuner (1895-1967) que ensinou os jovens ilustradores da editora, como João Fahrion, que realiza expressiva obra litográfica na década de quarenta.

A litografia no sul passou então por um período de declínio em sua utilização como expressão artística, apesar dos marcantes acontecimentos para a gravura nos anos quarenta e cinqenta com a criação do "Grupo de Bagé" e do "Clube de Gravura", onde se destacaram Carlos Scliar, Danúbio Gonçalves, Glênio Bianchetti e Glauco Rodrigues.

Em 1962, um curso de Marcelo Grassman no recém criado Atelier Livre, reintroduziu entre nossos melhores artistas a prática desta técnica. A partir de então, Danúbio Gonçalves dá continuidade a este trabalho, passando a lecionar litografia no Atelier Livre, investigando e promovendo intercâmbios como em 1967, quando o artista polonês Tadeus Lapinski realizou um curso de quase um ano, aprofundando conhecimentos relacionados à litografia em cores.

Na década de oitenta, funcionou em Porto Alegre o MAM - Atelier de Litografia, das artistas Maria Tomaselli, Anico Herskowits e Marta Loguercio, que além de oferecer cursos e edições para artistas, participou ativamente da vida cultural da cidade.

Atualmente, em Porto Alegre, além da Oficina de Litografia do Atelier Livre, coordenada desde 1997 por Miriam Tolpolar, funciona também a Oficina 11, dentro do Museu do Trabalho.



Princípios Básicos da Litografia

A litografia baseia-se na incompatibilidade entre duas substâncias: a gordura e a água. A superfície da pedra é desenhada com materiais adequados como tuche, lápis e crayons litográficos à base de gordura. Depois de feito o desenho, a pedra passa por um processo químico, onde recebe acidulações, isto é, uma combinação de goma arábica com os ácidos nítrico, fosfórico e tânico, em proporções adequadas a cada tipo de desenho. Um desenho mais leve, por exemplo, deverá ser preservado e protegido com goma pura, passando-se a acidulação mais forte nas áreas mais escuras, ou seja, com maior teor de gordura.

Esta solução irá transformar imediatamente as propriedades da pedra, alterando seu estado. Assim, quando acidulamos a pedra litográfica, estamos procurando conservar as áreas brancas (sem desenho) eliminando toda a possível gordura e preparando a pedra para que retenha mais água do que o faria normalmente, ao mesmo tempo em que estamos preparando as áreas com imagem (desenhadas com gordura), para que estas não aceitem a água, e sim a gordura que será depositada através do rolo com tinta de impressão durante a edição da gravura. A este complexo fenmeno físico-químico, chamamos adsorção, isto é, a atração que certas gorduras manifestam ante a pedra granitada[2]. Através destas acidulações, as áreas sem imagem são preenchidas pela goma que se mistura às moléculas da pedra, formando um "filme", ou seja, uma fina película que mesmo se lavada permanece nos poros da pedra.

Formaram-se assim dois tipos de superfície sobre uma mesma pedra: a imagem (o desenho feito pelo artista) e o branco (a não imagem). Depois de realizadas as duas acidulações, a pedra estará preparada para a edição.

Devemos destacar que a litografia é o único sistema gráfico que permite produzir um desenho espontâneo, direto e dependente unicamente da capacidade do artista, sendo submetido a um processo de edição que, em circunstâncias corretas poderá produzir um número quase ilimitado de exemplares. Além disso, as possibilidades expressivas da litografia são infinitas: a utilização de lápis litográficos de diferentes teores de gordura e crayons litográficos, aproximam-na do desenho; o tuche diluído em água ou solvente pincelado, respingado ou até mesmo esfregado na superfície da pedra poderá relacionar-se à aquarela e o gesto mais ou menos agressivo da pintura. A exploração de aguadas, as relações do positivo/negativo, os carimbos, o xerox, os raspados e as texturas são apenas alguns exemplos desta diversidade de procedimentos e técnicas.



A Pedra Litográfica

As pedras utilizadas em litografia, provêm, em sua maior parte das pedreiras de Solenhofen, junto a Munique. Existem pedras de várias cores, tamanhos e espessuras: as cinzentas são mais duras e as de tons amarelados (em maior número) são mais macias.

Como são procedentes de rochas sedimentares de origem orgânica, aparecem muitas vezes com manchas de minerais em sua composição, visíveis ou não em sua textura, ou veios e grânulos de cores diferentes.

A pedra litográfica é composta de 98% de carbonato de cálcio puro e 2% de impurezas minerais como vidro, ferro, alumínio e talco. Devido a sua composição em camadas, estas pedras quebram-se com facilidade, devendo ser manuseadas com cuidado.




[1] Por impressão planográfica entende-se que as áreas impressas (desenhadas) e as áreas não impressas (brancas), encontram-se no mesmo plano, à superfície da pedra litográfica.

[2] Segundo o dicionário Aurélio, adsorção a fixação das moléculas de uma substância (o adsorvato) na superfície de outra substância (o adsorvente).